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Asfalto podre, governo frágil e a velha mentira da “gestão anterior”

Quando o asfalto afunda, o discurso oficial afunda junto. A nota divulgada pela Prefeitura de Ponta Porã para explicar o colapso do Contorno Norte não é apenas insuficiente — é um retrato fiel da desorganização política e administrativa que hoje governa o município.

Diante de buracos que surgiram quase imediatamente após a entrega da obra e da intervenção constrangedora do Tribunal de Contas do Estado (TCE-MS), a gestão do prefeito Eduardo Campos (PSDB) apelou para o mais gasto dos álibis: culpar a chamada “gestão anterior”. Um truque velho, previsível e, neste caso, especialmente desonesto.

Desonesto porque a “gestão anterior” não é um governo estranho ou adversário político. É o mesmo grupo. É a mesma chapa. É o mesmo projeto de poder. Durante todo o período em que o Anel Viário foi licitado, projetado e teve sua execução iniciada, Campos não estava fora do gabinete: era vice-prefeito e secretário municipal de Governo e Comunicação. Tinha poder, influência e responsabilidade.

Ao afirmar que a obra foi mal executada e pior fiscalizada, o prefeito não denuncia erros alheios. Ele confessa os próprios. Critica uma administração da qual foi peça central. Aponta falhas que ajudam a desenhar o retrato de um governo incapaz de fiscalizar aquilo que ele mesmo contratou.

A nota oficial, no entanto, vai além da autossabotagem e entra no terreno da imprudência política. Ao jogar a culpa no passado, a Prefeitura lança à fogueira Hélio Peluffo, ex-prefeito de Ponta Porã e principal padrinho político de Eduardo Campos. Peluffo deixou o cargo para assumir a Secretaria de Estado de Infraestrutura e Logística, pasta responsável pelas grandes obras de Mato Grosso do Sul.

O recado implícito é devastador: se a versão da Prefeitura for verdadeira, o atual secretário estadual de Infraestrutura não conseguiu garantir a qualidade de uma pavimentação básica em sua própria cidade. A tentativa de salvar o governo municipal termina expondo, de forma cruel, o governo estadual.

Enquanto o discurso político se esfarela, a realidade técnica é ainda mais humilhante. A Prefeitura não descobriu nada. Não fiscalizou nada. Não preveniu nada. Foi preciso que o laboratório móvel do TCE-MS percorresse centenas de quilômetros até a fronteira para constatar o que qualquer engenheiro sabe: asfalto não se aplica sobre solo saturado. O erro é primário. É grosseiro. É indefensável.

E mesmo assim, a gestão tenta vender a reação tardia como virtude administrativa. Acionar a garantia da empresa Pactual Construção, que subcontratou a Maracaju Engenharia para refazer 1,2 quilômetro de pista, é apresentado como “eficiência” e “respeito ao dinheiro público”. Não é. É o mínimo esperado diante de um escândalo técnico já exposto.

Sem a intervenção do Tribunal de Contas, o asfalto podre provavelmente seguiria ali, deteriorando sob o silêncio cúmplice da fiscalização municipal. A nota oficial não esclarece. Não assume. Não corrige. Apenas transfere culpa.

No fim, o Contorno Norte virou símbolo de algo maior: um governo que não fiscaliza, não assume responsabilidades e, quando pressionado, prefere mentir mal a governar bem.